Cerca de 50 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais já usaram inteligência artificial generativa — 32% dos usuários de internet do país. O dado é da TIC Domicílios 2025, pesquisa do Cetic.br, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, divulgada em 9 de dezembro de 2025.
Para uma tecnologia que entrou no vocabulário popular há poucos anos, um terço dos internautas é adoção rápida. Mas o número agregado é o menos interessante da pesquisa.
**A desigualdade dentro do número**
Entre pessoas da classe A, 69% usam IA generativa. Entre as classes D e E, 16%. São 53 pontos percentuais de diferença.
O recorte por escolaridade repete o padrão: 59% entre quem tem ensino superior, 17% entre quem tem apenas o fundamental — 42 pontos de distância.
O Brasil resolveu boa parte do problema de acesso à internet nas últimas duas décadas. A proporção de lares urbanos conectados saltou de 13% para 85% no período. Mas conectar não é o mesmo que usar bem: a nova fronteira da desigualdade digital não é ter internet, é o que se consegue fazer com ela.
**Por que isso importa mais do que parece**
Ferramentas de IA hoje ajudam a escrever um currículo, entender um contrato, estudar para um concurso, redigir um recurso administrativo, resumir um laudo médico. São exatamente as tarefas em que quem tem menos escolaridade formal encontra mais barreira — e são as pessoas que menos estão usando.
Quando uma tecnologia que reduz esforço cognitivo chega primeiro a quem já tem mais recursos, o efeito imediato não é reduzir a distância entre grupos. É ampliá-la. A pesquisa do Cetic.br é explícita ao apontar que os benefícios potenciais seguem limitados às camadas de maior renda e escolaridade.
**O que a pesquisa é, e o que ela não é**
A TIC Domicílios é conduzida desde 2005 com metodologia estável, o que permite comparar anos distintos. A edição de 2025 ouviu 27.177 domicílios e 24.535 indivíduos, com coleta entre março e agosto daquele ano.
Ela mede uso declarado, não competência. Alguém que pediu uma receita a um assistente virtual e alguém que automatiza parte do próprio trabalho aparecem na mesma estatística. A distância real de proveito entre os grupos é, provavelmente, maior que a distância de acesso.
**O que observar**
Duas perguntas ficam para as próximas edições. A primeira: a diferença entre classes diminui conforme a tecnologia se populariza, como aconteceu com o celular, ou se estabiliza? A segunda: onde as pessoas estão aprendendo a usar essas ferramentas — escola, trabalho ou por conta própria? A resposta define se a distância é uma questão de tempo ou de política pública.
Os microdados da pesquisa são abertos e estão disponíveis no site do Cetic.br.
TECNOLOGIA
Cinquenta milhões de brasileiros já usam inteligência artificial — e a distância entre eles é de 53 pontos
TIC Domicílios 2025 mostra que a IA generativa chegou a um terço dos usuários de internet, mas se concentra em quem tem mais renda e escolaridade
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